A tecnologia entrou definitivamente na infância. Mas quem, por meio dela, está entrando no mundo íntimo das crianças? A pergunta conduziu a reunião aberta promovida pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), na segunda-feira, 5 de outubro, para discutir os impactos da exposição às telas e os perigos ocultos no ambiente digital.
O encontro, coordenado pelo médico urologista e conselheiro do Cremego Newton Brenner da Rocha e Silva (CRM/GO 5.666 | RQE 2.325), colocou em debate um tema atual que exige atenção das famílias, escolas, médicos, demais profissionais de saúde e de toda a sociedade: “A infância na era digital e os perigos ocultos na tecnologia”.
A palestra foi ministrada pela médica pediatra Lilian Vilela Paula (CRM/GO 5.546 | RQE 675), graduada pela Universidade Federal de Goiás e com residência médica pelo Hospital Geral de Goiânia, antigo INAMPS/MS. Lilian chamou a atenção para uma transformação que já faz parte da rotina das novas gerações. Crianças crescem conectadas, expostas e submetidas a estímulos constantes. Para ilustrar essa mudança, a pediatra recorreu ao filme “Toy Story 5”, cuja trama aborda justamente a entrada da tecnologia no universo das brincadeiras infantis.
A médica destacou que o avanço tecnológico não deve ser tratado como vilão. A tecnologia amplia possibilidades de informação, pesquisa e conexão. O impacto, segundo explicou, está relacionado à maneira como esses recursos são utilizados e ao espaço que passam a ocupar na vida da criança.
Entre os impactos negativos destacados por ela estão a redução de experiências que estimulam a criatividade, a substituição de brincadeiras coletivas tradicionais por atividades diante das telas e o aumento do sedentarismo. A pediatra lembrou que brincar também significa socializar, imaginar, criar e transformar objetos simples, como um cabo de vassoura, em brinquedos.
A exposição ao ambiente digital também pode colocar crianças e adolescentes diante de situações que nem sempre são percebidas pelos adultos. Lilian abordou riscos como bullying, comparação excessiva, prejuízos à autoestima, exposição à violência e sexualização precoce.
A pediatra alertou ainda para os efeitos do uso inadequado e excessivo de telas sobre a saúde. Entre eles estão possíveis prejuízos ao desenvolvimento cognitivo, à visão e à postura, além de distúrbios do sono e dificuldades de concentração.
Mudanças de comportamento também precisam ser observadas, enfatizou a palestrante. Isolamento social, irritabilidade e autolesão foram citados como sinais de alerta que exigem atenção dos responsáveis e, quando necessário, avaliação profissional.
Para Lilian, a atuação da família deve estar baseada principalmente na proximidade e na supervisão. Pais e responsáveis precisam conhecer o ambiente digital frequentado pelos filhos, estabelecer limites e manter espaço para diálogo, evitando julgamentos e comparações. “A família deve acolher”, aconselhou.
A médica também orientou os pais a terem cuidado com a própria exposição dos filhos nas redes sociais. Fotografias, vídeos e informações sobre a rotina das crianças, quando publicados sem critérios, ampliam uma exposição sobre a qual elas próprias ainda não têm condições de decidir.
Entre as medidas preventivas abordadas para prevenir impactos negativos da era digital na infância estão evitar o uso de telas antes dos dois anos e estabelecer limites adequados nas idades seguintes, além de preservar momentos de convivência, brincadeiras, atividades físicas e interação fora do ambiente digital.
Durante o encontro, também foi discutido como essa transformação da infância repercute na medicina e amplia a necessidade de atenção dos profissionais de saúde às mudanças comportamentais, emocionais e físicas relacionadas ao uso da tecnologia.
O conteúdo completo da reunião está disponível na plataforma Entre Médicos, do Cremego.